"Apesar
de ter feito grandes avanços materiais neste planeta, a
humanidade está perante muitos problemas, muitos mesmo,
alguns dos quais foram por nós criados. A nossa atitude
mental - a maneira como vemos a vida e o mundo - é, em
grande medida, o factor-chave para o futuro, o futuro da humanidade,
o futuro do mundo e o futuro do meio ambiente. São muitas
as coisas que dependem da nossa atitude mental, quer na esféra
pública quer na privada. É em grande parte da nossa
responsabilidade sermos felizes na nossa vida individual ou familiar.
Claro que as condições materiais são um factor
importante para a felicidade e para uma vida agradável,
mas a nossa atitude mental tem uma importante idêntica,
se não maior.
À
medida que nos aproximamos do século XXI, as tradições
religiosas são mais relevantes do que nunca. Contudo, tal
como no passado, continuam a surgir conflitos e crises em nome
de diferentes tradições religiosas. Isto é
muito triste, é uma grande infelicidade. Devemos fazer
todos os esforços para ultrapassar esta situação.
Na minha própria experiência, descobri que o método
mais efectivo para ultrapassar estes conflitos é um contacto
e um intercâmbio entre pessoas de várias crenças,
não só ao nível intelectual mas também
de profundas experiências espirituais. Este método
tem grande poder para desenvolver uma compreensão e respeito
mútuos. Através deste intercâmbio, pode ser
criado um forte alicerce de genuína harmonia.
(...)Alguns
de vós já me devem ter ouvido contar que ao visitar
o grande mosteiro de Montserrat em Espanha, encontrei um monge
beneditino. Ele tinha ido ali especialmente para me ver (...)
depois do almoço passámos algum tempo juntos, frente
a frente, e informaram-me que este monge tinha passado alguns
anos nas montanhas que ficam por trás do mosteiro. Perguntei-lhe
que tipo de contemplação tinha praticado nesses
anos de solidão. A sua resposta foi simples. «Amor,
Amor, Amor.» Que maravilha! Acho que às vezes ele
também dormia. Mas durante todos esses anos tinha meditado
simplesmente sobre o Amor e não tinha meditado sobre a
simples palavra. Quando olhei nos seus olhos vi a prova do Amor
e de uma profunda espiritualidade - tal como tinha visto nos meus
encontros com Thomas Merton.
Estes
encontros ajudaram-me a desenvolver uma reverência genuína
pela tradição cristã e pela sua capacidade
de criar pessoas de tamanha bondade. (...) Todas as principais
religiões têm o potencial de o fazer. Quanto maior
for o nosso cuidado ao olharmos para o valor e para a eficácia
das outras tradições religiosas, maior será
o nosso respeito e veneração por essas religiões
do mundo."
S.S. XIV DALAI LAMA
GYATSO, Tenzin, A Bondade do Coração, Porto, Asa editores, 2002, pg.81 e 82