A TODOS EM GERAL
"Não
é preciso reflectir muito para constatar que todos os seres
procuram espontaneamente a felicidade e detestam sofrer. Nem sequer
é possível encontrar um único insecto que
não faça tudo o que pode para fugir ao sofrimento
e para se sentir bem. Como os humanos têm além do
mais a capacidade de reflexão, o meu primeiro conselho
é utilizá-la convenientemente.
O
prazer e o sofrimento baseiam-se em percepções sensoriais
e na satisfação interior. Para nós, a satisfação
interior é o elemento mais importante. Ela é especificamente
humana. Com raras excepções, os animais são
incapazes de a sentir.
Esta
satisfação caracteriza-se pela paz. Tem raiz na
generosidade, na honestidade e naquilo a que chamo comportamento
moral, isto é, um comportamento que respeita o direito
dos outros à felicidade.
Uma
grande parte dos nossos sofrimentos vem do facto de termos demasiados
pensamentos. Além disso, não pensamos de uma maneira
sadia. Só nos interessa a satisfação imediata,
sem considerarmos a longo prazo as vantagens e os inconvenientes
que ela nos possa trazer a nós e aos outros. Ora esta atitude
acaba sempre por voltar-se contra nós. É certo e
seguro que basta mudar a nossa maneira de ver as coisas para reduzir
as nossas dificuldades actuais e evitar a criação
de dificuldades futuras.
Alguns
dos sofrimentos, como os do nascimento, da doença, da velhice
e da morte, são inevitáveis. A única coisa
que podemos fazer é reduzir o medo que temos deles. Mas
muitos dos problemas do mundo, desde as disputas conjugais às
guerras mais desvastadoras, podiam ser evitados muito simplesmente
se adoptássemos uma atitude sadia. Se não reflectirmos
correctamente, se tivermos vistas demasiado curtas, se os métodos
carecerem de profundidade e não considerarmos as coisas
com um espírito aberto e tranquilo, acabamos por transformar
em grandes dificuldades aquilo que à partida não
passavam de problemas insignificantes. Por outras palavras, somos
nós que fabricamos um grande número dos nossos sofrimentos."
S.S. XIV DALAI LAMA
GYATSO, Tenzin, Conselhos do Coração, Porto, Asa editores, 2005, pp.15-16