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Início CCT - Songtsen : História e Cultura : O sono, o sonho e a morte
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DALAI LAMA LISBOA 2007


 
"ÉTICA PARA O NOVO MILÉNIO"

de SS Dalai Lama

Editora Presença
Tradução de Conceição Gomes

Prefácio

Perdi o meu país aos dezasseis anos, exilei-me aos vinte e quatro e enfrentei muitas dificuldades ao longo da minha vida. Quando as examino, vejo que muitas delas eram insuperáveis. Não só eram inevitáveis como não tinham solução satisfatória. Apesar disso, em relação à minha paz de espírito e saúde física, posso dizer sem mentir que estive à altura da situação. O resultado foi ser capaz de enfrentar a adversidade com todas as minhas capacidades mentais, físicas e espirituais, o que teria sido impossível se tivesse sucumbido à ansiedade e ao desespero. A minha saúde teria sido afectada e ter-me-ia sentido constrangido nas minhas acções.

Quando olho à minha volta, vejo que não somos somente nós, os refugiados tibetanos e membros de outras comunidades deslocadas, que temos dificuldades. Em todo o lado e em qualquer sociedade, as pessoas têm de enfrentar o sofrimento e a adversidade - mesmo as que gozam de liberdade e de prosperidade material. Parece-me que muita da infelicidade que nós humanos suportamos é, na realidade, criada por nós mesmos. No entanto, em princípio pelo menos, é evitável. Vejo também que os indivíduos cujo comportamento é eticamente positivo são geralmente mais felizes e encontram um maior significado à vida do que os que negligenciam a ética. O que confirma a minha convicção de que, se podemos reorientar os nossos pensamentos e emoções e reorganizar o nosso comportamento, então podemos não só aprender a lidar com o sofrimento mais facilmente mas, sobretudo e em primeiro lugar, evitar que muito dele surja.

Neste livro tentarei expor o que eu entendo por "comportamento ético positivo". Ao fazê-lo, concordo que é muito difícil tanto fazer generalizações como ser-se absolutamente preciso no domínio da ética e da moralidade. Raramente, se é que alguma vez, uma situação é totalmente branca ou preta. O mesmo acto pode ter diferentes formas e graus de valor moral em diferentes circunstâncias. Ao mesmo tempo, é essencial que possamos chegar a um consenso em relação ao que constitui um comportamento positivo e ao que constitui um comportamento negativo, ao que é certo e ao que é errado, ao que é apropriado e ao que é inapropriado. No passado, o respeito que existia pela religião significava que a prática da ética era mantida por uma maioria de pessoas, praticantes de uma ou de outra religião. Mas já não é o caso. Devemos pois, encontrar outro caminho para estabelecermos princípios éticos básicos.

Não suponha o leitor que eu, como Dalai Lama, tenha uma solução original a oferecer. Não há nada nestas páginas que não tenha já sido dito antes. Na verdade, sinto que as preocupações e ideias expressas aqui são partilhadas por muitos dos que pensam nelas e tentam encontrar soluções aos problemas e ao sofrimento que nós, humanos, enfrentamos. Como resposta à sugestão de alguns dos meus amigos e, ao oferecer este livro ao público, a minha esperança é dar voz àqueles milhões que, não tendo uma oportunidade de expressar os seus pontos de vista em público, são membros do que eu penso ser uma maioria silenciosa.

O leitor deve, no entanto, ter em mente que a minha aprendizagem formal foi inteiramente religiosa e de carácter espiritual. Desde a minha juventude, o meu campo principal (e contínuo) de estudo, foi a filosofia e a psicologia budista. Principalmente, estudei as obras de filósofos religiosos da escola Gelugpa à qual os Dalais Lamas tradicionalmente pertencem. Sendo um firme defensor do pluralismo religioso, estudei também as principais obras de outras tradições budistas. Comparativamente, tenho pouca experiência do pensamento secular moderno. Porém, este não é um livro religioso e ainda menos um livro sobre budismo. A minha intenção foi fazer um apelo para uma abordagem da ética baseada num princípio universal, mais do que em princípios religiosos.

Por esta razão, escrever um livro destinado a uma audiência geral levantou inúmeros desafios e este é o resultado de um trabalho de equipe. Um problema específico surgiu da dificuldade em exprimir na linguagem moderna muitos termos tibetanos que nos pareceu essencial usar. Como não era de todo suposto tratar-se de um tratado filosófico, tentei explicar estes conceitos de forma a poderem ser compreendidos por um leitor que não seja especialista e também de forma a serem facilmente traduzidos em outras línguas. Mas ao fazê-lo e ao tentar comunicar sem ambiguidade com os leitores cuja língua e a cultura são bem diferentes da minha, é possível que algumas subtilezas do significado tibetano se tenham perdido e outras tenham sido involuntariamente acrescentadas. Espero que o cuidadoso trabalho de edição que fizemos tenha minimizado esse aspecto. Porém, se algumas deformações vierem à luz, espero poder corrigi-las numa edição posterior. Entretanto, pela sua assistência nesta área, pela tradução em inglês e pelas inumeráveis sugestões que fez, gostaria de agradecer ao Dr. Thupten Djinpa. Gostaria também de agradecer a AR Norman pelo seu trabalho de redacção que foi inestimável. Por fim, gostaria de agradecer a todos os que participaram na criação desta obra.

Dharamsala, Fevereiro 1999
Estandarte
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