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Início CCT - Songtsen : História e Cultura : A História do Tibete: A dinastia Yarlung ou Chogyal
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DALAI LAMA LISBOA 2007


 
A HISTÓRIA DO TIBETE
Os primeiros Clãs e as Tribos ChiangAs administrações do séc.XIII ao séc.XXPág.4/5
A dinastia Yarlung ou Chogyal

Como acontece com a maioria das culturas primitivas, torna-se difícil datar, com precisão, os factos históricos dos grupos étnicos primitivos do Tibete, bem como dos descendentes dos quatro clãs principais. Alguns dados, porém, parecem apontar para que pelo inicio do séc. VIII a.C. tais grupos humanos primitivos foram suplantados pelos descendentes desses quatro clãs e que, até meados do séc. III a.C. os chamados 12 reinos e 40 principados - originados desses clãs - assumiram o controlo do planalto, onde deambulavam quer nómadas quer diversas facções guerreiras.

O primeiro rei tibetano foi Nyatri Tsenpo, assinalado como tendo origem mítica divina. Algumas fontes referem-se a ele como o Senhor Rupati - um príncipe indiano exilado aquando das guerras Pandara. Atribui-se-lhe, porém, uma curiosa proveniência da montanha que servia ao Clã Shakya ou Licchavi da região do Nepal, directamente conectada com o Buda histórico, o famoso sábio desse clã, designado, por tal, por Shakiamuni.

Nyatri Tsenpo construiu o palácio de Yumbu Lagang no vale do Yarlung - nome que iria servir para designar a larga dinastia tibetana que iniciara. Nyatri Tsenpo terá sido entronizado no ano de 127 a.C. como primeiro Rei do Tibete.

Tudo leva a crer, pois, que antes do séc. II a.C. o Tibete não conheceu qualquer unificação. Porém, a partir de Nyatri Tsenpo o planalto iria ser unificado e transformar-se-ia num verdadeiro império. Tal império, com determinadas características civilizacionais, iria, como se verá adiante, a partir de determinada altura, ver a sua cultura tibetana, até aí semi-selvagem, transformar-se radicalmente devido aos elevados padrões éticos e espirituais trazidas pela introdução do Dharma no Tibete, a religião hoje designada por Budismo. Por tal, esta dinastia, que este no poder cerca de mil anos, viria a ser designada por Chogyal ou dos "Reis do Dharma".

Podemos descrever, resumidamente, que os quarenta e dois reis da Dinastia Yarlung se reagruparam em sete grandes grupos: Tri (7 reis), Teng (2), Lek (6), De (8), Tsen (5), os "Quatro Reis Ancestrais dos Grandes Reis Religiosos" e os "Nove Reis Religiosos" estendendo-se do sec. II a.C. ao sec. IX d.C.

Foi no período dos "Nove Reis Religiosos" que o Budismo foi introduzido no "País das Neves" (o Tibete) e que este se expandiu, unificou e se tornou, de facto, uma grande civilização imperial. Foi, também, nesse período que a sua língua antiga e diferente da chinesa viu nascer uma escrita e uma gramática. Foi a partir desse período que a civilização tibetana se tornou num reduto de cultura espiritual que não só guardava o que de mais precioso existia na cultura indiana e noutras civilizações vizinhas, como viria mesmo, a partir de certa altura, a ser uma guardiã integral do budismo, quando ele, nas suas diversas escolas, veio a desaparecer da Índia.

Com Songtsen Gampo no séc. VII o Império tibetano veio a transformar-se numa grande potência da Ásia que estendia a sua influência ao Pamir ao Turquestão e ao Nepal. Com ele dois grandes templos são construídos em Lhassa e o budismo é introduzido no país particularmente através de mestres indianos e um nepalês. O seu casamento com duas princesas budistas, uma nepalesa e uma chinesa, auxiliou igualmente essa introdução. A estruturação de uma escrita para a língua tibetana iria proporcionar, a partir daí, as traduções dos ensinamentos, nomeadamente do Sânscrito. Porém, a introdução do budismo não se viria a revelar fácil, dada a forte implantação do "bonismo" ou religião Bon, a religião tradicional anterior.

Songtsen Gampo que subira ao trono com 13 anos, anexou o reino limítrofe de Shangshung
(Zangzhung) unificando o que viria a ser o Tibete. Lhassa transforma-se, então, na capital do Império.

De 665 a 692 os reis da dinastia Yarlung controlaram muitas cidades da Ásia central, e enfrentaram a China da dinastia Tang por várias vezes. Uma inscrição de Lhassa, sob o Palácio Potala, refere-se à conquista do Oeste da China pela armada tibetana, no séc. VIII.

O 38º rei tibetano Trisong Deutsen, em pleno séc. IX estabelece o budismo como religião de estado. O convite do abade da grande universidade de Nalanda, na Índia, Shantarakshita, seguido pelo do Mestre tântrico iluminado, Padmasambhava - a que os tibetanos iriam chamar Guru Rinpotche - o Precioso Guru - bem como do mestre renomado Vimalamitra e de tradutores como Vairocana - permitiu a construção do primeiro mosteiro tibetano, o de Samye, a ordenação dos primeiros monges e a tradição meditativa do Dzogchen - a Grande Perfeição. Fala-se, também, de 108 eruditos indianos que foram envolvidos com tradutores tibetanos na tradução da literatura budista para tibetano.

O terceiro rei após Trisong Deutsen, Thi Ralpachen viria a ser o terceiro grande rei do Dharma. Com ele cada monge passa a ser suportado por sete famílias de seus súbditos. Mandou construir milhares de templos e estandardizou os métodos de tradução dos textos budistas para tibetano. Convidou numerosos mestres indianos como Vimalanitra e Surendrabodhi que com tradutores tibetanos como Yeshede retraduziram todos os textos até aí já traduzidos com um elevado nível de qualidade, para além de muitos outros. Desta forma, o budismo enraizou-se mais na cultura tibetana.

De entre os actos políticos do reinado de Thi Ralpachen há que realçar o Tratado de Paz, de 821, com a China, que definiu, também, a fronteira sino-tibetana em Chorten Karpo, no Amdo.

Ralpachen acabou assassinado muito novo, aos 36 anos de idade, pelos seus ministros pró-Bon associados ao seu irmão Langdarma Udumtsen, que uma vez instalado no poder passou a perseguir o budismo, particularmente a sangha bhikshu. Desta forma, numerosos monges são perseguidos, mortos, ou recrutados para o exército, fazendo com que a instituição monacal - particularmente no Tibete central - desaparecesse por mais de um século. Somente praticantes tântricos, de forma incógnita ou em retiros de montanha, fizeram sobreviver o budismo, durante este período obscuro, para o Tibete central. Após cinco anos de reinado Langdarma acabou, também ele, assassinado e, de imediato, os seus dois filhos combateram pelo trono embora nenhum deles lhe viesse a suceder. O império tibetano ir-se-ia, depois, desintegrar, em pequenos principados e o Tibete iria deixar de ter um poder central por um período de mais de trezentos anos.

O budismo retomou um novo vigor num dos poucos lugares onde se conseguira manter, no Gugue, através de Lha Lama Yeshe Ö, patrono quer do primeiro grande tradutor da chamada difusão posterior do budismo, Rinchen Zangpo (958-1054), quer do renomado mestre indiano Atisha. Assim o dharma foi revivificado e corrigido de muitos erros que persistiam sobre ele. Os textos tântricos traduzidos na primeira disseminação do budismo no tempo de Padmsambhava ficaram conhecidos pelos Tantras Antigos da linhagem ou Escola Nyingma. Os Tantras traduzidos no séc. XI, viriam a ser designados Novos Tantras e o período por "Difusão Posterior" da Doutrina.

Atisha e este novo grupo de tradutores iriam dar origem à tradição Kadampa. Drokmi Lotsawa (1012-1097) faz aparecer a tradição Sakyapa, cujas origens remontam a Gayadhara e Virupa. A tradição Kagyu emergiu com Marpa Lotsawa como continuação dos ensinamentos de Tilopa e Naropa. Diversos templos de várias ordens são construídos durante o séc. XI, no Tibete.

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