|
Como acontece com a maioria das culturas primitivas, torna-se difícil
datar, com precisão, os factos históricos dos grupos
étnicos primitivos do Tibete, bem como dos descendentes dos
quatro clãs principais. Alguns dados, porém, parecem
apontar para que pelo inicio do séc. VIII a.C. tais grupos
humanos primitivos foram suplantados pelos descendentes desses quatro
clãs e que, até meados do séc. III a.C. os
chamados 12 reinos e 40 principados - originados desses clãs
- assumiram o controlo do planalto, onde deambulavam quer nómadas
quer diversas facções guerreiras.
O primeiro rei tibetano foi Nyatri Tsenpo, assinalado como tendo
origem mítica divina. Algumas fontes referem-se a ele como
o Senhor Rupati - um príncipe indiano exilado aquando das
guerras Pandara. Atribui-se-lhe, porém, uma curiosa proveniência
da montanha que servia ao Clã Shakya ou Licchavi da região
do Nepal, directamente conectada com o Buda histórico, o
famoso sábio desse clã, designado, por tal, por Shakiamuni.
Nyatri Tsenpo construiu o palácio de Yumbu Lagang no vale
do Yarlung - nome que iria servir para designar a larga dinastia
tibetana que iniciara. Nyatri Tsenpo terá sido entronizado
no ano de 127 a.C. como primeiro Rei do Tibete.
Tudo leva a crer, pois, que antes do séc. II a.C. o Tibete
não conheceu qualquer unificação. Porém,
a partir de Nyatri Tsenpo o planalto iria ser unificado e transformar-se-ia
num verdadeiro império. Tal império, com determinadas
características civilizacionais, iria, como se verá
adiante, a partir de determinada altura, ver a sua cultura tibetana,
até aí semi-selvagem, transformar-se radicalmente
devido aos elevados padrões éticos e espirituais trazidas
pela introdução do Dharma no Tibete, a religião
hoje designada por Budismo. Por tal, esta dinastia, que este no
poder cerca de mil anos, viria a ser designada por Chogyal ou dos
"Reis do Dharma".
Podemos descrever, resumidamente, que os quarenta e dois reis da
Dinastia Yarlung se reagruparam em sete grandes grupos: Tri (7 reis),
Teng (2), Lek (6), De (8), Tsen (5), os "Quatro Reis Ancestrais
dos Grandes Reis Religiosos" e os "Nove Reis Religiosos"
estendendo-se do sec. II a.C. ao sec. IX d.C.
Foi no período dos "Nove Reis Religiosos" que
o Budismo foi introduzido no "País das Neves" (o
Tibete) e que este se expandiu, unificou e se tornou, de facto,
uma grande civilização imperial. Foi, também,
nesse período que a sua língua antiga e diferente
da chinesa viu nascer uma escrita e uma gramática. Foi a
partir desse período que a civilização tibetana
se tornou num reduto de cultura espiritual que não só
guardava o que de mais precioso existia na cultura indiana e noutras
civilizações vizinhas, como viria mesmo, a partir
de certa altura, a ser uma guardiã integral do budismo, quando
ele, nas suas diversas escolas, veio a desaparecer da Índia.
Com Songtsen Gampo no séc. VII o Império tibetano
veio a transformar-se numa grande potência da Ásia
que estendia a sua influência ao Pamir ao Turquestão
e ao Nepal. Com ele dois grandes templos são construídos
em Lhassa e o budismo é introduzido no país particularmente
através de mestres indianos e um nepalês. O seu casamento
com duas princesas budistas, uma nepalesa e uma chinesa, auxiliou
igualmente essa introdução. A estruturação
de uma escrita para a língua tibetana iria proporcionar,
a partir daí, as traduções dos ensinamentos,
nomeadamente do Sânscrito. Porém, a introdução
do budismo não se viria a revelar fácil, dada a forte
implantação do "bonismo" ou religião
Bon, a religião tradicional anterior.
Songtsen Gampo que subira ao trono com 13 anos, anexou o reino
limítrofe de Shangshung
(Zangzhung) unificando o que viria a ser o Tibete. Lhassa transforma-se,
então, na capital do Império.
De 665 a 692 os reis da dinastia Yarlung controlaram muitas cidades
da Ásia central, e enfrentaram a China da dinastia Tang por
várias vezes. Uma inscrição de Lhassa, sob
o Palácio Potala, refere-se à conquista do Oeste da
China pela armada tibetana, no séc. VIII.
O 38º rei tibetano Trisong Deutsen, em pleno séc. IX
estabelece o budismo como religião de estado. O convite do
abade da grande universidade de Nalanda, na Índia, Shantarakshita,
seguido pelo do Mestre tântrico iluminado, Padmasambhava -
a que os tibetanos iriam chamar Guru Rinpotche - o Precioso Guru
- bem como do mestre renomado Vimalamitra e de tradutores como Vairocana
- permitiu a construção do primeiro mosteiro tibetano,
o de Samye, a ordenação dos primeiros monges e a tradição
meditativa do Dzogchen - a Grande Perfeição. Fala-se,
também, de 108 eruditos indianos que foram envolvidos com
tradutores tibetanos na tradução da literatura budista
para tibetano.
O terceiro rei após Trisong Deutsen, Thi Ralpachen viria
a ser o terceiro grande rei do Dharma. Com ele cada monge passa
a ser suportado por sete famílias de seus súbditos.
Mandou construir milhares de templos e estandardizou os métodos
de tradução dos textos budistas para tibetano. Convidou
numerosos mestres indianos como Vimalanitra e Surendrabodhi que
com tradutores tibetanos como Yeshede retraduziram todos os textos
até aí já traduzidos com um elevado nível
de qualidade, para além de muitos outros. Desta forma, o
budismo enraizou-se mais na cultura tibetana.
De entre os actos políticos do reinado de Thi Ralpachen
há que realçar o Tratado de Paz, de 821, com a China,
que definiu, também, a fronteira sino-tibetana em Chorten
Karpo, no Amdo.
Ralpachen acabou assassinado muito novo, aos 36 anos de idade,
pelos seus ministros pró-Bon associados ao seu irmão
Langdarma Udumtsen, que uma vez instalado no poder passou a perseguir
o budismo, particularmente a sangha bhikshu. Desta forma, numerosos
monges são perseguidos, mortos, ou recrutados para o exército,
fazendo com que a instituição monacal - particularmente
no Tibete central - desaparecesse por mais de um século.
Somente praticantes tântricos, de forma incógnita ou
em retiros de montanha, fizeram sobreviver o budismo, durante este
período obscuro, para o Tibete central. Após cinco
anos de reinado Langdarma acabou, também ele, assassinado
e, de imediato, os seus dois filhos combateram pelo trono embora
nenhum deles lhe viesse a suceder. O império tibetano ir-se-ia,
depois, desintegrar, em pequenos principados e o Tibete iria deixar
de ter um poder central por um período de mais de trezentos
anos.
O budismo retomou um novo vigor num dos poucos lugares onde se
conseguira manter, no Gugue, através de Lha Lama Yeshe Ö,
patrono quer do primeiro grande tradutor da chamada difusão
posterior do budismo, Rinchen Zangpo (958-1054), quer do renomado
mestre indiano Atisha. Assim o dharma foi revivificado e corrigido
de muitos erros que persistiam sobre ele. Os textos tântricos
traduzidos na primeira disseminação do budismo no
tempo de Padmsambhava ficaram conhecidos pelos Tantras Antigos da
linhagem ou Escola Nyingma. Os Tantras traduzidos no séc.
XI, viriam a ser designados Novos Tantras e o período por
"Difusão Posterior" da Doutrina.
Atisha e este novo grupo de tradutores iriam dar origem à
tradição Kadampa. Drokmi Lotsawa (1012-1097) faz aparecer
a tradição Sakyapa, cujas origens remontam a Gayadhara
e Virupa. A tradição Kagyu emergiu com Marpa Lotsawa
como continuação dos ensinamentos de Tilopa e Naropa.
Diversos templos de várias ordens são construídos
durante o séc. XI, no Tibete.
|