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Este foi o primeiro contacto que o Ocidente teve com o Tibete.
A sua primeira carta, intitulada "Novo Descobrimento do Gram
Cathayo ou Reinos do Tibete, pelo Padre António de Andrade
da Companhia de Jesus, português, no ano de 1624" datada
de 8 de Novembro de 1624, foi dirigida, de Agra, ao provincial André
Palmeiro e publicada, depois, em Lisboa, por Mateus Pinheiro, em
1626.
Há cópias deste raro documento de 16 páginas:
uma encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa e outra no Arquivo
Nacional da Torre do Tombo, para além de uma cópia
desta carta, feita na Índia que se encontra, presentemente,
na Biblioteca da Ajuda.
A divulgação da existência destes reinos através
da Europa foi bastante rápida. Assim, no mesmo ano da publicação
em Lisboa, a carta foi traduzida para espanhol e no ano seguinte
para italiano e francês; dois anos depois para polaco e cinco
anos mais tarde para flamengo (holandês). Isto significa que
logo após a chegada de António de Andrade ao Tibete,
a informação da "descoberta" fora traduzida
em cinco línguas, cobrindo grande parte da Europa. Tão
ampla divulgação parece ter sido duma verdadeira procura
do novo "descobrimento" tão importante para Portugal
nessa altura.
Porém, a divulgação que se continuou a dar
nas suas cartas seguintes continuava a ser imperfeita, por diversas
razões, particularmente pelos interesses envolvidos. Houve,
de facto, um "choque" inter-religioso não previsto
por António de Andrade, daí o ter ocultado, não
só a figura de Buda - central na religião que contactara
- como de algumas imagens que lhe não era conveniente explicitar,
nomeadamente, as simbólicas de várias cabeças
e braços já que pouco tinham a ver com a tradição
cristã e seriam difíceis de entender na cultura ocidental
da época.
Cabe aqui dizer que os jesuítas portugueses julgavam, inicialmente,
ir encontrar reinos cristãos perdidos, com um cristianismo
eventualmente exótico e degenerado, por influências
diversas, mas, particularmente, por falta de contactos com o cristianismo
ocidental, visto como genuíno. Em vez disso, depararam com
uma religião extremamente organizada, simbólica e
diferente da dos gentios, conhecida na Índia. Por certo -
e para terem um mínimo de conhecimento quer da língua
quer dos textos sagrados dessa religião se tornava urgente
compreender para eventualmente corrigir os "desvios" -
teriam de se submeter à aprendizagem com os mestres (lamas)
tibetanos. Ora, isso era impossível de ser descrito por carta
e muito mais para depois vir a ser divulgado pela Europa Cristã,
num período tão difícil quanto o inquisitorial
da época.
António de Andrade, cumprindo a promessa (que diz ter feito)
ao Rei de Chaparangue, realizou uma segunda viagem, acompanhado
pelo Padre Gonçalo de Sousa e o Irmão Manuel Marques.
Deixaram Agra a 17 de Junho de 1625 e uma vez que tomavam um caminho
mais curto, chegaram àquela cidade do Tibete a 28 de Agosto,
ou seja, gastando somente dois meses e meio de viagem. Contudo as
dificuldades da segunda viagem não parecem ter sido menores
do que as da primeira. Numa segunda carta, datada de 15 de Agosto
de 1626, dirigida ao Padre Maurício Vilellesschi, Geral da
Companhia de Jesus, ele descreve a recepção que teve
na Corte e os trabalhos preparatórios para o estabelecimento
da missão, como a construção do edifício
da primeira igreja em Chaparangue.
Em alguns destes capítulos desta carta, ele descreve vários
aspectos da recepção, da terra e da sua cultura, nomeadamente
religiosa, tais como: "a entrada que fizemos nestas terras",
"a qualidade das terras do Tibete e a diversidade de Reinos
que lá existiam", "vários costumes dos Lamas"
claro que à sua própria maneira e com a ênfase,
distorção ou promoção de imagens que
se sabe, hoje, ter existido, surgida de pontos de vista divergentes,
apesar das similitudes que notara mas nem sempre soubera compreender,
das analogias por vezes despropositadas, mas que de facto buscava,
devido a, como dissemos, ter julgado (senão feito crer que
julgou) tratar-se dessa religião (o hoje chamado budismo
mas que nessa altura não tinha qualquer nome destes, pois
tal termo é um neologismo do século passado) uma forma
de cristianismo adulterado.
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